Johnny Cash era um garoto pobre que nasceu numa pequena fazenda no Arkansas e conheceu a tragédia prematuramente.Seu irmão morreu atingido por uma serra elétrica e o próprio pai lhe incutiu a culpa pelo acontecido. Tipo: “Se deus tivesse de levar alguém que levasse a ele, o pequeno Johnny que era relapso e não gostava dos afazeres do campo, não ao seu irmão que eral a representação do menino trabalhador e pródigo”. Mas como deus, pelo que aparenta, não é lá tão justo assim e não estava nem aí para a dor da família, deixou o pequeno Cash carregar esse complexo de culpa para resto de sua atribulada vida.
Pobre Cash que não sabia que uma carreira permeada de desatres lhe perseguiria e aos seus próximos por grande parte de sua existência. Desde o vício em afetaminas e outras “cositas más”, à morte prematura do guitarrista de sua primeira banda, passando por prisões, idas e vindas por clínicas de reabilitação e muitos bodes pretos mais.
Mas, uso todas essas referências para me reportar ao último disco de Cash, American IV, The Man Comes Around, lançado em 2002, com uma bela capa, obscura, forte e suave ao mesmo tempo, que mereceria uma moldura. É um disco denso com algumas inéditas e outras versões. E são as versões que mais impressionam. A começar por “Hurt” do Nine inch nails, que bate de longe a original. Além do clip, arrepiante, ter levado vários prêmios em sua categoria. “Bridge over trouble waters” de Simon e Garfunkel - que um amigo falou que era religiosa, mas acredito que não - não dá para ser ouvida sem que lágrimas escorram na face. “In my life”dos Beatles nos deixa a impressão que o velho Johnny já estava se despedindo, que aconteceu menos de um ano depois do lançamento. “Personal Jesus” do Depeche Mode, está irretocável como um boogie meio country nada conformado. Quando Johnny gravou este disco já estava abalado pelo mal de Alzheimer e essa situação torna ainda mais pungente sua performance. Com voz grave e arranjos econômicos, Cash imprime sua personalidade a todo o material. Trata-se de um disco dominado por temas como morte, despedidas e destruição (os versos da faixa-título, composta pelo próprio Cash, são uma meditação religiosa sobre o apocalipse). Um trabalho arrepiante, como raramente se vê.




