Bem. Têm vindo à tona em certas conversas "etílicas" com amigos meus, um termo que eu mesmo cunhei de pronto, do alto das minhas crises de Criticisite Aguda (nada mais que a conhecida Síndrome do Crítico), o qual chamo Geração Zero, para descrever esse período que estamos vivendo.
Passei a pensar mais atentamente nisso um dia desses que estava no supermercado comprando víveres. Cheguei a ficar incomodado tamanha quantidade de produtos que traziam na embalagem a advertência "zero gordura", "zero açúcar", zero isso ou zero aquilo. Cheguei a me perguntar se havia algo dentro daquelas embalagens. Assustado pensei: "daqui a pouco irão criar produtos com 'zero ar'". Só então, mais assustado ainda, atentei para o fato que esses tais produtos já existem, são as bexigas dessas de encher.
Isso ficou desde esse dia me intrigando e vez por outra me peguei pensando nisso ou discutindo minhas impressões com amigos. Acompanhe meu raciocínio e veja se é ou não é pra ficar intrigado:
A geração dos anos 50 ficou conhecida como a geração dos "anos dourados", a dos 70 como a greação dos "anos de chumbo", os anos 80 nos deram a "geração Coca-Cola". Esta que aí está pode-se chamar de "geração Coca-Cola Zero"(!).
Percebem como as coisas foram grotescamente se diluindo até ficarem assim inertes como estão? O zero representa - a meu ver - o nada, completa ausência de unidades, valores, emoções, gravidade... O zero é visualmente vazio.
Sou da geração oitenta. Apesar de ter tido minhas melhores experiências nos anos 90 (incluindo aí todas as situações foda e fodas situacionais) foram os "oitenta" que lapidaram minha índole e me tornaram um cara apto a encarar os anos noventa como toda informação que eles trariam.
Voltando um pouco mais no tempo, tivemos de engolir uma ditadura nos anos 60, e nem bem essa década tinha terminado o AI-5 amordaçou nossas bocas e aquele abacaxi verde-oliva com gosto de sola de coturno desceu goela abaixo. Os anos 80 viram crescer uma geração que era ávida por informação, novidades. Daí estarmos de braços abertos e preparados para segurar o que quer que caísse em nosso colo. Saca só o que caiu em cima da minha geração na virada dessas duas décadas: AIDS, queda do muro de Berlim e fim do comunismo, Saddan Hussein e Bush pai brincando de Atari no Iraque, eleição do Collor, impeachment do Collor, compact disc, internet, icq...
E a gente tirou isso de letra como aquele menino fazendo malabarismo com laranjas no semáforo. Aí agora, vêm uma geração que tem toda a liberdade do mundo pra correr atrás da informação, pensar, mastigar tudo, e essa rapaziada fica imersa em tanto superficialismo?! Soa até estranho isso que eu disse pois não dá nem pra ficar imerso em superficialismo, é o mesmo que imaginar alguém nadando em dez centímetros de água. Mea-culpa, admito que essa geração atual foi mal treinada (culpa dos vídeo games), pois foi uma geração incitada a "zerar" (de zerar o jogo, finalizar, etc). Treinados para chegarem ao objetivo final do jogo que era simplesmente "zerar".
Vivemos assolados pela ditadura do zero e em toda parte ele está. Até a banda mais popular do Brasil nesses dias se chama NXZero.
Acho que está na hora dessa moçada dar um passo (ou dez) adiante e sair desse zero em que está parada. É hora de pensar, repensar, fazer, lutar, incomodar, falar, perguntar, encher o saco, encarar um livro, passar o livro adiante, protestar... Enfim, deixar de "zerar".
Agradeço a essa força motora superior (a quem a maioria chama Deus) por não ter deixado a humanidade debaixo dos parâmetros da filosofia do "zero açúcar" há mais tempo. Do contrário não haveria uma casa de doces para a bruxa encarcerar Joãozinho e Maria, eu não teria assistido La Dolce Vita (A Doce Vida), Willy Wonka seria só um mendigo excêntrico sem sua fantástica fábrica de chocolates, e por aí vai...
Por Edgard Maeta (Notívago, poeta e visionário de bar)